Estudo de estilo: Tripel

Tripel é um estilo de cerveja cuja origem remonta aos monastérios europeus, mais especificamente aos monastérios da Ordem Trapista. Os monges acreditam que uma vida autossustentável, baseada na agricultura e na fabricação dos próprios produtos, é a mais santa. Monastérios de diferentes ordens religiosas tem produzido cerveja desde a idade média para consumo próprio. Atualmente, os monges fazem cerveja para financiar suas causas e trabalhos.

As cervejas produzidas pelos monastérios da Ordem Trapista são famosas e reconhecidas mundialmente por sua qualidade. O termo “Trapista” é um termo protegido e só pode ser utilizado em cervejas (ou outros produtos) produzidos em um monastério trapista. Qualquer outra reprodução do estilo deve ser chamada “cerveja de abadia”. Além disso, há uma organização trapista internacional que regula o uso do termo “Authentic Trappist Product”  ou ATP nos rótulos. Para ser considerada um produto trapista autêntico, a cerveja tem que atender rigorosos padrões de qualidade, segurança, propaganda e regras de produção como:

  1. A cerveja tem que ser produzida dentro de um monastério Trapista e a produção deve ser realizada ou supervisionada pelos monges.

  2. A cervejaria deve ter importância secundária dentro do monastério e deve seguir práticas comerciais próprias de uma vida monástica.

  3. A cervejaria não deve ser um negócio com fins lucrativos. Os lucros devem ser utilizados para cobrir os custos de vida dos monges e a manutenção dos prédios e equipamentos do monastério. O excedente deve ser doado ou utilizado para ajudar pessoas necessitadas.

Apenas 10 cervejarias produzem cervejas que carregam o selo ATP atualmente: Bières de Chimay, Brouwerij der Sint-Benedictusabdij de Achelse Kluis (Achel), Brasseire d’Orval, Brasserie de Rochefort, Brouwerij der Trappisten van Westmalle e Brouwerij Westvleteren/St. Sixtus na Bélgica, Stift Engelszell na Áustria, Brouwerij de Koningshoeven (La Trappe) e Trappistenbrouwerij de Kievit (Zundert) na Holanda, e St. Joseph’s Abbey (Spencer) nos Estados Unidos.

Figura 1: Logo ATP 

 

As cervejas produzidas nos monastérios recebiam nomes indicativos da sua força alcóolica, conforme costume na época. Assim, surgiam denominações como single, dubbel (ou duple) e tripel (ou triple) ou ainda X, XX e XXX visto que naquela época a maioria das pessoas era analfabeta. Essas denominações seriam correspondentes a teores alcóolicos de aproximadamente 3, 6 e 9%. A single, também chamada de pater beer, era a mais fraca de todas e era a cerveja feita para consumo regular dos monges. Outra vertente diz que essas denominações vieram do fato de os monastérios utilizarem o método Parti-Gyle de produção no qual de uma mesma brassagem se produziam três cervejas cada uma a partir da respectiva extração de açúcar dos grãos. Como a terceira extração tem bem menos açúcares que a segunda, que tem menos açúcares que a primeira, as cervejas obtidas têm concentrações alcóolicas diferentes. As denominações teriam vindo nesse caso da quantidade de açúcar presente no mosto – single para o mosto com menos açúcar e tripel para o mosto mais concentrado. Atualmente, essas denominações são utilizadas apenas como marketing.

Essas cervejas eram todas escuras, inclusive a tripel. Foi recentemente, em 1934 que foi lançada a primeira tripel clara como conhecemos atualmente. Ela foi desenvolvida pela Westmalle em conjunto com o cervejeiro Hendrik Verlinden que já havia trabalhado como consultor da Westmalle e lançada em 1934 quando a nova cervejaria foi inaugurada. A tripel da Westmalle é considerada a “mãe de todas as tripel” e é um clássico, referência absoluta do estilo.

A tripel é uma cerveja clara, de coloração dourada, com delicado sabor maltado proveniente do malte pilsen utilizado como base e grande presença de ésteres frutados e fenóis condimentados provenientes da fermentação. Mas cuidado para não ser enganado! Apesar das aparências, é uma cerveja forte, cor teor alcóolico de pelo menos 7,5%, podendo chegar a 9,5%. O álcool não deve estar evidente, entretanto. Aroma de lúpulo deve ser baixo, são utilizados tradicionalmente lúpulos nobres, mas o amargor deve ser firme e presente. Apesar do sabor frutado e levemente adocicado. Uma boa tripel deve terminar seca.  Apresentam alta carbonatação, boa formação e retenção de espuma, com a formação do tradicional “rendado belga”, um bonito efeito deixado pela espuma no copo.

Figura 2: Efeito “Rendado Belga”

Figura 3: Efeito “Rendado Belga” – Zoom

Parâmetros de estilo segundo o BJCP 2014 (Draft):

OG: 1,075 – 1,085

FG: 1,008 – 1,014

IBUs: 20 – 40

SRM: 4,5 – 7

ABV: 7,5 – 9,5%

Para um estudo prático do estilo resolvi degustar quatro exemplares diferentes. As cervejas escolhidas foram: Westmalle Tripel da Cervejaria Brouwerij der Trappisten van Westmalle, a Chimay Triple da Bières de Chimay, a La Trappe Tripel da Brouwerij de Koningshoeven e a Gouden Carolus Tripel da  Brouwerij Het Anker.

Figura 4: Cervejas degustadas 

Figura 5: Cervejas degustadas

Referências:

  1. BJCP 2014 (Draft) Style Guidelines – http://www.bjcp.org/docs/2014%20BJCP%20Style%20Guidelines%20%28DRAFT%29.pdf

  2. http://www.trppistwestmalle.be/en/page/tripel.aspx

  3. http://www.trappist.be/en/pages/trappist-beers

  4. BYO – Belgian Tripel: Style profile – http://byo.com/hops/item/1996-belgian-tripel-style-profile

  5. BYO – Dunkelweizen and Belgian Tripel: Style Profile – https://byo.com/grains/item/579-dunkelweizen-and-belgian-tripel-style-profile

  6. Belgian Tripel – http://allaboutbeer.com/article/belgian-tripel/

  7. http://en.wikipedia.org/wiki/Trappist_beer

  8. http://www.stpeterslist.com/197/the-7-authentic-trappist-monk-beers/

  9. http://ithinkaboutbeer.com/2013/03/19/q-ale-why-are-they-called-dubbel-tripel-quad-etc/

  10. Mosher, Randy – Radical brewing : recipes, tales, and world-altering meditations in a glass, 2004, ISBN 978-0-937381-83-0

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